30.9.08

Realidades Reificadas


Em 1944 Adorno e Horkheimer falavam em sua Dialética do Esclarecimento da reificação do homem, de sua desindividualização e consequente diluição de sua vontade própria e domínio sobre seus desejos. Consequências essas do Capitalismo tardio e de sua forma industrial de produção de bens culturais. Bens porque, tudo nesta cultura na qual vivemos é transformado em produtos, mesmo as expressões culturais. No caso dessas, as autônomas, as espontâneas, as edificadoras do espírito humano e que transformam, de alguma forma, o ser e seu espírito, são copiadas e "ré"-produzidas pela máquina industrial, despojadas de sua aura e a coisa resultante é vendida como produto de prateleira.
Na mais maliciosa, meticulosa, fantasticamente engendrada sutileza, esses "bens" são vendidos como se o consumidor os desejasse realmente, como se o desejo brotasse de seu íntimo e não fosse um algo construído artificialmente. O homem então os consome pois são de fácil digestão e assim o ser não precisa passar pela dolorosa ação de analisá-los, dialogar com eles e assim, com sua própria realidade e existência. Aqui, o ser perde sua individualidade, sua capacidade de pensar e de construir uma dialética com a realidade. Ele é reificado.
Bom, toda essa introdução é para refletir sobre um acontecimento da última semana: a chuva diluviana que causou enchentes e alagamentos em São Paulo e, "na qual", este que vos escreve esteve bem em seu centro. O que me causou maior estranheza não foi ver, há poucos metros de meus olhos, o volume de água, nem sua força avançando pelas ruas e formando corredeiras em plena avenida, tomando carros, caminhões, ônibus e tudo que estava em seu caminho, como meras folhas esperando para serem levadas; não foi também as tentativas de uma velha e sua filha em atravessar o rio de esgoto, lixo, lama e despojos; não causou-me estranheza a fúria dos céus se abatendo sobre o construto humano e sua insensibilidade com o meio ambiente, sobre o modo de vida que estamos, há séculos, construindo sem nos importar com nossos hábitos, ou tentar mudá-los para, pelo menos, procurar garantir um mundo onde viver, para nossos filhos, netos, quinquinetos; tampouco a estranheza maior foi causada pela constatação de que aquelas corredeiras de imundices, aqueles redemoinhos formados em suas margens, como as de um rio comum, mas composta de dejetos de uma sociedade em desagregação e repleta dos restos de nossos atos, eram um mero reflexo de nosso modus operandi, nosso caminhar no que hoje chamamos de vida.
A estranheza, brechtiana até, foi causada não pelo que mais chamava a atenção, mas pelo que estava ao redor: a perplexa constatação que as pessoas, as vítimas, os seres humanos ali, naquele momento, aquela massa achava tudo aquilo normal e esperavam, riam, falavam ao telefone celular, gritavam em coro cômico quando alguém atravessava atrapalhadamente as corredeiras e simplesmente levavam suas vidas automaticamente, reificadas, em bemol, sem sustenir suas ações, em um monótono e cacofônico uníssono.
A perplexidade está no fato de que achamos, todos, muito normal o caminho que estamos seguindo e pensar diferente é bobagem. Adorno estava certo... Como é Doloroso raciocinar. Deixemos as circunstâncias nos levar. Vamos ouvir, ver, sentir, desejar, agir, andar, comprar, beijar, transar, brigar, aprender... Como se tudo estivesse em uma gôndola de supermercado, pronta para ter seu código de barras passado no scanner do caixa para, depois, consumirmos.
Não eu.
Não eu.

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