
A ferida da qual se fala aqui é a forma como a cultura é gerida pelo poder público municipal. Não sendo tratada como política pública, as ações na cidade são resumidas a oficinas culturais em um modelo questionável, ou ultrapassado e na compra de espetáculos. Para um município com uma das maiores arrecadações do estado de São Paulo – para 2008 o orçamento é de R$ 2,2 billhões - parece muito pouco o que se faz pela cultura.
Em tempos em que se discute a reformulação da Lei Rouanet e financiamento público, uma das mais ricas cidades de São Paulo ainda tem perfil um tanto provinciano e atrasado. Não se abrem editais e a impressão é a de que a contratação de artistas é feita segundo critérios pouco democráticos, do tipo balcão de armazém. Falta um mecanismo eficaz de apoio e promoção da cultura na cidade e não se vê um debate aberto para esse cenário modificar.
Claro que, a falta de posicionamento e articulação da classe artística na cidade corrobora para a situação. Menos crítica e provocação, isso é um alerta para que ela se mobilize e cobre uma ação clara da administração pública. Enquanto em outros palcos a inconformidade é coisa intrínseca ao artista,
Mas voltemos ao início dessas linhas e falemos daqueles que cutucaram a ferida. Estão aprendendo que os primeiros são os que dão a cara à tapa e se machucam. Mas não importam os machucados se o fruto é doce, importam? O grupo de teatro Cia As Marias se levantou e literalmente enfiou o dedo na ferida e goela abaixo do Departamento de Cultura de São Bernardo – que faz parte da estrutura da SEC (Secretaria de Educação e Cultura).
Levantou-se e hoje é retaliado por esse mesmo departamento. Para compreender um pouco a situação, uma das “Marias” seria contratada para realizar uma exposição sobre Clarice Lispector
Nenhuma surpresa nisso não fosse o tom revanchista da ação. Coisa coerente é a administração pública abrir um edital e, de forma clara e aberta, definir um artista para realizar determinada obra. No caso em questão, não houve edital e a escolha ocorreu via curadoria do projeto que indicou – por experiência anterior – quem deveria realizá-lo.
O Departamento de Cultura acatou e depois de negociações com os artistas estava pronto para fechar o contrato. Nesse ínterim entra a Cia As Marias para cutucar o doente. Como a artista plástica “quase” contratada é também uma Maria, os enfermeiros, ou o Departamento de Cultura de São Bernardo não gostou e deu a negativa. Resultado, a exposição sobre Clarice Lispector vai acontecer, mas sem a Maria e diferente daquilo que, inicialmente e há muito tempo, imaginavam seus curadores.
Deflagra-se nisso provincianismo, falta de gestão e planejamento? Muito provavelmente sim e também a necessidade urgente desse município, uma das maiores arrecadações do estado de São Paulo, tratar a cultura como ela deve ser tratada. Cultura não é entretenimento, tão pouco produto de balcão de armazém. Cultura nos envolve a todos e determina nosso pensar, nosso agir, nosso fazer. A ferida aberta só vai começar a cicatrizar quando poder público, artistas, intelectuais, acadêmicos e demais interessados promoverem um debate aberto a fim de definir um projeto para a cidade. Felizmente, a ferida cultural
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Nesse espaço você dialoga com ComunA e deixa seus comentários e observações sobre o que escrevemos.