20.3.08

Carta aos artistaS

Tarde de sexta-feira, jovem de descendência negra e indígena, dreads vermelhos a prender os cabelos crespos, roupas coloridas e ar pacato levanta-se em meio a uma multidão de espectadores em evento promovido pela Secretária de Educação e Cultura de São Bernardo do Campo e com voz espartana, pronuncia: “Mentiras! Vocês promovem apenas mentiras e ilusões!”. Talvez, não tenham sido bem essas as palavras usadas, mas foi o recado. Deu o recado e a cara à tapa, o que muitos gostariam de ter feito, mas têm o receio a atar os membros!

Essa artista, integrante da Cia As Marias, leu parte da “Carta aos Poderes”, uma carta protesto enviada pelo grupo ao Departamento de Cultura, sobre matéria publicada no primeiro número da publicação “SEC em revista”. Arrancou aplausos e assobios de uma platéia em êxtase por ver naquela figura suas próprias indignações tomando voz e corpo. Multiplicaram-se ali Marias e Zés em aplauso uníssono contra a romanesca política do pão (bolorento) e circo dos Césares que, mesmo após milênios, continuam a vender ao povo suas ilusões que, passivo, as compra satisfeito como quem adquiriu um ótimo produto. É isso o que ocorre em nosso terreiro. É contra isso que essa voz de Maria se levantou em meio à multidão de aflitos silenciosos.

A Maria falou da política cultural que se faz hoje em São Bernardo do Campo. Que política é essa? A que almeja? O que se propõem realizar? Bom seria se, ao menos, houvesse um caminho traçado, um norte ou indicação que fosse. Mas nem isso parece haver. A realidade mostra-se letárgica, provinciana, confortavelmente anestesiada (com a licença do uso do título da música de David Gilmor e Rogers Waters, Comfortably Numb). Uma letargia que começa nas gavetas de um departamento de cultura burocratizado, abarrotado de funcionários públicos no sentido pejorativo da palavra (há exceções, graças!), enquanto agentes culturais que compreendem a cultura e seu significado são exilados onde não podem causar dano algum ao corpo dirigente e seus asseclas. Um departamento distribuidor de privilégios para quem aceita sua “parceria” pífia, arraigado em diretrizes bisonhas que fazem da cultura não mais que simples oferta de projetos e espetáculos, além de oficinas culturais num formato já defasado. Enfim, um departamento que oferece à população o pão e o circo que a mantém confortavelmente anestesiada.

A desculpa mais usada pela administração pública é a falta de verba. Mas então, por que em cidades vizinhas, com orçamento bem mais discreto e humilde do que um dos cinco maiores orçamentos do estado (aproximadamente R$2,2 bilhões previstos para 2008) é feito muito mais pela cultura? Por quê? Porque há planejamento e vontade política, além de uma boa dose de criatividade na gestão da cultura. Vêem-se propostas sólidas e coerentes para o fazer cultural, onde há diálogo entre administração pública e sociedade civil (em especial, a classe artística); onde a provincianidade política cede lugar à questão maior, que é o bem comum de uma comunidade. Mas é difícil abrir mão de uma posição, é custoso ceder lugar ao outro em busca de soluções quando se tem o poder nas mãos. Olhem à sua volta, políticos e administradores retrógrados! Olhem em outros belos horizontes e vejam como oposição e situação podem fazer, juntos, um governo para o cidadão e não para seus pequenos interesses político-partidários.

E vocês, artistas, onde estão? Que papel interpretam neste palco? Em que posição se colocam diante a situação que se arrasta à sua frente? Em sua inconformidade se mobilizam e cobram do poder público uma verdadeira política para a cultura? Não, não é isso o que acontece, não é mesmo? A classe artística também se encontra confortavelmente anestesiada. O que é pior: se encontra mergulhada em letargia, desarticulada, dividida, concentrada que está em suas dificuldades individuais, não abrindo o olhar para o todo. Há, ao menos, uma reflexão sobre o seu fazer, sobre a sua arte ou ela é apenas uma moeda de troca, um produto comercializável na banca do departamento de cultura? Que propõem? Que fazem? Adianta muito pouco, ou quase nada, criticar o trabalho alheio e não dar a cara à tapa. E não é por falta de qualidade ou caráter que se encontram anestesiados. Pois, sabemos, há artistas nessa cidade com experiência, formação e qualidade tão boas como em qualquer outra parte do país. Verdade há que ser dita, também há os oportunistas e pseudo-intelectuais que miram suas críticas para todo lado, em busca de uma admiração canina qualquer. Desse tipo, não importa a opinião, pois são efêmeros. Dirijo-me àqueles que, sabemos, têm potencialidades, ainda que dormentes, e podem gerar alguma mudança. Saiam das cavernas do ser e dêem, vocês também, a cara à tapa. Proponham, unam-se, dialoguem sobre seu fazer, sobre as políticas de cultura na cidade e digam não, sem hipocrisia, às “parcerias unilaterais” propostas pelo poder público.

Que o som de sua voz, artistas, seja em uníssono. Não se deixem fragmentados, divididos, enclausurados em sua forma de arte. Cultura é algo maior, global, não fragmentado, não compartimentado. Há milênios os donos do poder usam bem e evoluem a simples tarefa de dividir para reinar. Olhamos à nossa volta e vemos os artistas divididos, defendendo seus próprios interesses e se esquecendo que a arte não é para si, é para o outro. A modernidade a tudo fragmenta: as disciplinas do conhecimento, dividindo-as em humanas e exatas, quando é tudo parte do humano como ser e como humanidade; o contexto objetivo, do subjetivo; o racional, do emocional. Pois os artistas deveriam ser os primeiros a refutar essa realidade, propor transgressões, mudanças, transformação. Olhem para si mesmos e pensem no que podem fazer e façam! Sejam mal-educados, soltem suas vozes espartanas, façam arte e reflitam sobre seu fazer, para que ele evolua e o reflexo disso seja a transformação da realidade. Mas saibam, isso só acontecerá quando assumirem seu papel e derem sua cara à tapa.

“Por educação perdi minha vida” - J.A. Rimbaud

2 comentários:

  1. Anônimo21.3.08

    assoprai,assoprai... proponho uma coletânea de assopros, proponho uma assopragem, proponho uma tempestade,como bem dito a letárgia
    é sinônima daquela paz maceira que assopra lenta e fria e assobia mantricamente e paralisa e alisa a cara lisa,contem com meu APOIO,no melhor sentido que possa se entender esta palavra.


    margemNOW!

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  2. MargemNOW, obrigado por suas palvras. Esse espaço é também seu, para dialogarmos e criarmos. Transforme seu apoio em ação - seja pequena e cotidiana, ou grande e mobilizadora - e será esse o melhor apoio que poderíamos necessitar.

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